segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ainda Coutinho

Cabra marcado para morrer (1985)


"Cabra Marcado para morrer" é uma experimentação com o tempo que aconteceu por acaso. A grande sacada de Coutinho foi saber se aproveitar do acaso através dessa possibilidade que o cinema dá de manipular o tempo. É primeiro de abril  de 1964. Havia um golpe no meio do caminho. Na mesma semana do golpe, os militares apreendem o material que estava sendo usado na gravação de Cabra(latas de filmes, tripés, refletores, etc) no Engenho da Galiléia. Nos jornais, diziam que o material "acionava o dispositivo de subversão ali montado pelos esquerdistas internacionais". Com este revés, Coutinho teve de interromper as gravações de Cabra, mas a ideia longe de fenecer, continuou a fermentar dentro de si durante o período nefasto que fora a ditadura militar no Brasil. A abertura política foi sendo paulatinamente conquistada desde 1979, e, finalmente, em 1981 Coutinho consegue retomar seu projeto. E Coutinho volta a procurar seu principal elo com o falecido João Pedro Teixeira- a viúva Elizabeth. Em São Rafael, uma cidadezinha do Rio Grande do Norte, consegue encontrá-la, vivendo agora na clandestinidade, com um outro nome, e vivendo com seu filho Abrãao. Mas Coutinho se depara com uma Elizabeth pouco à vontade, intimidada com a veemencia com que seu filho Abrãao expunha suas colocações políticas- em especial elogios ao governo de Figueiredo. O espectador poderia vir a pensar que a Elizabeth, viúva forte e guerreira, ativista da Liga Camponesa, já não existia mais, havia minguado com os quase vinte anos de repressão militar. E eis que Coutinho, mais tarde, a encontra, sem a presença do filho Abrãao, com um outro ânimo. Uma Elizabeth espontânea, cheia do vigor que a luta de resistência requer, se apresenta agora à câmera. Agora nós podemos ver que a boa e velha Elizabeth, de fato, não havia esmorecido e, como ela mesma disse, não esqueceu a luta. E no final triunfal do filme, clímax de nossa heroína, ela reafirma ainda com mais contundência sua posição de líder política: “a luta aqui não pára. A mesma necessidade de 64 está plantada. Ela não fugiu um, um, milímetro”. Cabra não é um filme sobre João Pedro Teixeira. Cabra é um filme sobre Elizabeth Teixeira. E o filme em si guarda muitas semelhanças com sua heroína. O baque em 64, a perseverança durante os anos que se seguiram e a reanimação de ambos em sua verve política, quando livres das amarras da ditadura militar. "Cabra marcado" também estava marcado para morrer. Mas não morreu, e como se costuma dizer: o que não mata, fortalece.




Jogo de Cena(2007)


Jogo de Cena é mais do que um documentário que procura expandir a fronteira entre o real e a ficção, o espontâneo e o representado. Os vínculos são tão fortes e nítidos, e exibidos de forma tão gritante(por vezes até desconcertante) por Coutinho que essa fronteira desaparece, nós nos esquecemos dela. Vínculos entre as pessoas "da vida real" e as atrizes, entre esses personagens e câmera. Vínculos até mesmo entre as atrizes-como-são-na-vida-real e a persona que assumem perante a câmera, mesmo quando são elas mesmas. Esse incômodo é exposto de maneira brilhante pela atriz Fernanda Torres:"A diferença é que com um personagem fictício, se você atinge um nível medíocre, você pode até ficar nele.Ele é da sua medida. Com um personagem real, a realidade um pouco esfrega na sua cara onde você poderia chegar e não chegou. Tem alguém acabado na sua frente.O outro é um processo." Nesse curto desabafo da atriz nos resta óbvio que Coutinho não estava atado às treze mulheres que responderam a seu anúncio para contar suas histórias- foi além e conseguiu ilustrar até os anseios e receios das atrizes em sua humanidade, não apenas como meros aparelhos miméticos à serviço da dramaturgia. Os seus closes são comparáveis aos da mais fina ficção, como os de Dreyer, e o modo como disseca o interior de todos esses personagens e suas inúmeras facetas é quase bergmaniana. O que se passou com Fernanda em seu confronto em representar Aleta poderia ter muito bem redundado na mudez martirizante de Elizabeth Vogler(também atriz) em Persona. O mais incrível do filme é justamente isso- ele se utiliza da mais sorrateiramente de artifícios da ficção para esfregar(para usar a expressão utilizada por Fernanda) na cara do espectador uma verdade quase aguda, incômoda. E Coutinho faz tudo isso de forma muito sutil. Afinal, quem somos? Nós mesmos ou uma representação de nós mesmos?

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