segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

"O Homem das Multidões" e os espaços vazios



"O homem das multidões" trouxe uma vitória para o cinema nacional: enquadrou(no sentido de tornar quadrado) os espaços vazios como os de Antonioni.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sobre Memória Tangerina- Mulheres Legendadas

Há tempos que eu planejava ver Memória Tangerina e que por alguma razão ainda não tinha visto. Podia ser aquela prova para a qual eu precisava estudar, o projeto de monografia que eu precisava esboçar, gravações e reuniões de grupo que eu tinha no meio da semana, decisões que eu tinha de tomar...Enfim, ou seriam essas obrigações cotidianas ou seria um tranca-verso qualquer que me impedia. A vida é cheia desses tranca-versos, e não é só para se mudar de cômodo, não. Existem versos para nos fazer mudar qualquer coisa. Tem aquele específico que é justamente pra nos fazer sair da nossa zona de conforto, tomar a iniciativa e mudar aquilo que queremos em nossa vida. E é esse que, na hora “h”, dá branco. Não porque não o saibamos, mas porque talvez, inconscientemente, não queiramos saber, por medo do incerto- alguns chamarão covardia outros simplesmente instinto de preservação. O filme do Dodô mostra que essa passagem é necessária, e, para que ela ocorra muitas vezes precisamos quebrar uns ovos e assassinar umas Clarices, pois se não não teríamos omeletes. Se precisamos ser fortes para isso? Uma Giulia lá atrás teria respondido convicta que sim. E é aí que Dodô, com um sorriso doce de quem sabe algum segredo e espera que o descubramos por conta própria, e com a altivez de quem está afiançado por um Tarkovsky, nos arrebata. Não, nos não precisamos ser fortes. A fraqueza pode nos ser uma grande aliada. Fraqueza e flexibilidade são atributos da vida. E é a nossa fraqueza, ao contrário do que diz o senso comum, que muita das vezes nos diz “Vamos!”. É a nossa fraqueza que nos embala com Caetano ou Pixies e nos fazer tomar as rédeas de nossas vidas. É a nossa fraqueza que nos diz que nós não precisamos entender, precisamos sentir. Eu, que desdenhava da minha própria fraqueza, agora aprendi a conviver com ela, e hoje, posso dizer que lhe sou grata. Sou grata por todos os “Vamos!” quando minha legenda dizia “Não vou”. Porque o que endureceu não pode vencer. E “Vamos!” é a minha palavra favorita. Obrigada Tarkovsky, obrigada Dodô! Obrigada a todos aqueles cuja sensibilidade dispensa legendas!

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ainda Coutinho

Cabra marcado para morrer (1985)


"Cabra Marcado para morrer" é uma experimentação com o tempo que aconteceu por acaso. A grande sacada de Coutinho foi saber se aproveitar do acaso através dessa possibilidade que o cinema dá de manipular o tempo. É primeiro de abril  de 1964. Havia um golpe no meio do caminho. Na mesma semana do golpe, os militares apreendem o material que estava sendo usado na gravação de Cabra(latas de filmes, tripés, refletores, etc) no Engenho da Galiléia. Nos jornais, diziam que o material "acionava o dispositivo de subversão ali montado pelos esquerdistas internacionais". Com este revés, Coutinho teve de interromper as gravações de Cabra, mas a ideia longe de fenecer, continuou a fermentar dentro de si durante o período nefasto que fora a ditadura militar no Brasil. A abertura política foi sendo paulatinamente conquistada desde 1979, e, finalmente, em 1981 Coutinho consegue retomar seu projeto. E Coutinho volta a procurar seu principal elo com o falecido João Pedro Teixeira- a viúva Elizabeth. Em São Rafael, uma cidadezinha do Rio Grande do Norte, consegue encontrá-la, vivendo agora na clandestinidade, com um outro nome, e vivendo com seu filho Abrãao. Mas Coutinho se depara com uma Elizabeth pouco à vontade, intimidada com a veemencia com que seu filho Abrãao expunha suas colocações políticas- em especial elogios ao governo de Figueiredo. O espectador poderia vir a pensar que a Elizabeth, viúva forte e guerreira, ativista da Liga Camponesa, já não existia mais, havia minguado com os quase vinte anos de repressão militar. E eis que Coutinho, mais tarde, a encontra, sem a presença do filho Abrãao, com um outro ânimo. Uma Elizabeth espontânea, cheia do vigor que a luta de resistência requer, se apresenta agora à câmera. Agora nós podemos ver que a boa e velha Elizabeth, de fato, não havia esmorecido e, como ela mesma disse, não esqueceu a luta. E no final triunfal do filme, clímax de nossa heroína, ela reafirma ainda com mais contundência sua posição de líder política: “a luta aqui não pára. A mesma necessidade de 64 está plantada. Ela não fugiu um, um, milímetro”. Cabra não é um filme sobre João Pedro Teixeira. Cabra é um filme sobre Elizabeth Teixeira. E o filme em si guarda muitas semelhanças com sua heroína. O baque em 64, a perseverança durante os anos que se seguiram e a reanimação de ambos em sua verve política, quando livres das amarras da ditadura militar. "Cabra marcado" também estava marcado para morrer. Mas não morreu, e como se costuma dizer: o que não mata, fortalece.




Jogo de Cena(2007)


Jogo de Cena é mais do que um documentário que procura expandir a fronteira entre o real e a ficção, o espontâneo e o representado. Os vínculos são tão fortes e nítidos, e exibidos de forma tão gritante(por vezes até desconcertante) por Coutinho que essa fronteira desaparece, nós nos esquecemos dela. Vínculos entre as pessoas "da vida real" e as atrizes, entre esses personagens e câmera. Vínculos até mesmo entre as atrizes-como-são-na-vida-real e a persona que assumem perante a câmera, mesmo quando são elas mesmas. Esse incômodo é exposto de maneira brilhante pela atriz Fernanda Torres:"A diferença é que com um personagem fictício, se você atinge um nível medíocre, você pode até ficar nele.Ele é da sua medida. Com um personagem real, a realidade um pouco esfrega na sua cara onde você poderia chegar e não chegou. Tem alguém acabado na sua frente.O outro é um processo." Nesse curto desabafo da atriz nos resta óbvio que Coutinho não estava atado às treze mulheres que responderam a seu anúncio para contar suas histórias- foi além e conseguiu ilustrar até os anseios e receios das atrizes em sua humanidade, não apenas como meros aparelhos miméticos à serviço da dramaturgia. Os seus closes são comparáveis aos da mais fina ficção, como os de Dreyer, e o modo como disseca o interior de todos esses personagens e suas inúmeras facetas é quase bergmaniana. O que se passou com Fernanda em seu confronto em representar Aleta poderia ter muito bem redundado na mudez martirizante de Elizabeth Vogler(também atriz) em Persona. O mais incrível do filme é justamente isso- ele se utiliza da mais sorrateiramente de artifícios da ficção para esfregar(para usar a expressão utilizada por Fernanda) na cara do espectador uma verdade quase aguda, incômoda. E Coutinho faz tudo isso de forma muito sutil. Afinal, quem somos? Nós mesmos ou uma representação de nós mesmos?