Como cinéfila e grande entusiasta do diretor Quentin Tarantino, não perdi a oportunidade de ver seu último lançamento "Django". Os filmes de Tarantino são como aquele bife malpassado, suculento, que te traz de volta à sua forma mais atávica. É cru e sangrento. Causa mal estar aos mais pudicos vegetarianos. E, depois de "Pulp Fiction", "Cães de Aluguel" e "Bastardos Inglórios", foi exatamente isso que eu esperava ao começar a ver "Django", e foi exatamente isso que tive. Mas é precisamente toda essa violência que causa fascínio aos admiradores de Tarantino. Há quem não goste do estilo do diretor, justamente sob este argumento- "É violento demais", "Muito sangue"... Um professor meu disse em aula certa vez, parafraseando Nietzsche, que, se você tirar tudo do ser humano, sobra violência. Até uma pacifista convicta como eu sou forçada a admitir a verdade que isto contém. Eu sou contra a força física, mas posso ser violenta quando escrevo, principalmente. Voltando ao filme: acredito que muitos espectadores, assim como eu, tenham vibrado quando o protagonista Django consegue se libertar e se vingar de seus algozes, em meio a chibatadas sanguinolentas. Com muito mais razão regozijaram-se ao final do filme quando o mesmo resgata o amor da sua vida, Broomhilda, das mãos de seu inescrupuloso senhor. Tudo isso muito natural, muito humano. E o que tem Mandela a ver com isso? A aproximação é pelo fato dos dois serem negros e triunfarem no final? Não. O cenário é ainda maior. O que quero dizer é que o valor do Mandela é justamente esse: ele chegou ao patamar de Presidente da África do Sul sem derramamento de sangue, sem um clímax tarantinesco. Não quis vingar seus quase trinta anos enclausurado em uma prisão, chicoteando seus malfeitores. Não via em seu semblante qualquer vestígio de ressentimento ou revanchismo. Pelo contrário - mostrava sempre um sorriso plácido que denunciava sua paz de espírito e mostrava ao mundo a que veio. Denunciava essa serenidade que o tornou digno de um Nobel da Paz, de ser um líder para seu país e para a humanidade. Todo movimento que busca igualdade e visa pôr fim a séculos de opressão, a princípio, é um movimento reativo. Essa reação pode muitas vezes ser exagerada (sim, somos humanos, e lembrem-se, falo de SÉCULOS de injustiças e opressão) e é muitas vezes descontextualizada e deturpada por aqueles que não conseguem enxergar o que realmente está por trás dos movimentos sociais- o que redunda em expressões como feminazi, gayzista, coitadismo, ditadura do politicamente correto, etc. Mas Mandela era um visionário. Ele estava além, e de forma extraordinária ele conseguiu pular esta fase. Foi direto para a fase da razão. Com aquela mesma paz de espírito e serenidade da qual falei, a questão que se colocou não foi "Como podemos dar o troco?", o que o faria agir da mesma maneira que os defensores do apartheid, a qual abominava. Seria uma contradição. Ao invés, pensou : "Como podemos fazer diferente? Como tornar essa sociedade mais justa e igualitária, servindo de exemplo para os demais países? Será que reagir é a melhor forma de pôr um fim de vez ao racismo? Não conseguiríamos um mesmo resultado através da paz?" Certamente, Mandela anteviu que a resposta para essa última pergunta seria positiva. Na minha opinião, os caminhos da paz podem ser mais demorados, mas, no final das contas, vale à pena. Portanto, a minha admiração por Tarantino fica dentro da telona. Fora do enquadramento, quero mais Mandelas.
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